Dezembrar

A arte imita a vida ou a vida imita a arte?

Nunca entendi como uma pergunta tão batida poderia ser viciada, ao estilo jogo de cartas marcadas.

Ampliando a distância para melhor ver, sinto que nem um, nem outro. Vida é arte e vice-versa.

A pegadinha está no “ou”. Ele praticamente impede que o interlocutor reflita livre-mente.

Da pergunta quase retórica à sétima arte, menos de um pulo, fazendo lembrar o “documentário-ficcional” (expressão pela qual assumo a responsabilidade) “Jogo de cena”, de Eduardo Coutinho.

Documentário, pois o Diretor aparece conversando com pessoas anônimas, as questionando sobre suas histórias de vida, dando início a confissões-narrativas (assumo também). Ficcional pelas cenas serem intercaladas com outras cenas, essas feitas por atores e atrizes, nem tod@s conhecid@s do grande público, nas quais interpretam narradores e narradoras “reais” e seus relatos, gerando dúvidas no público sobre a arte e a vida, verdade e mentira. Recomendo.

Tudo isso – ou apenas isso – para registrar que balanços e retrospectivas feitas a cada dezembro raras vezes têm algo de justo ou de objetivo. Não trazem as verdades ocorridas na última translação da terra, mas memórias, opiniões e, pasmem Excelências, versões!

Vale para os clientes que batem às portas dos escritórios de Advocacia, para Doutas e Doutos que recorrem ao Judiciário, às partes, informantes e testemunhas que depõem perante o Estado-Juíza/Juiz, para Peritos, Servidores, Estagiários, Terceirizados…enfim, para tudo e para tod@s.

Não nos angustiemos pelo que desejávamos fazer e não fizemos, na vida e no Direito, que como a arte é vida.

Não nos comparemos com quem “leva” vidas “instagramáveis” (essa eu só repito, não assumo), bate todos os recordes e “trabalha enquanto os outros dormem”, na vida e no Direito.

Não sejamos espartanos com quem não comunga de nossos valores e projetos, tampouco dança as mesmas músicas e segue os mesmos ritmos que nós, na vida e no Direito.

E para encerrar essa sucessão de “nãos”, tentemos fazer reflexões – individuais, plúrimas e coletivas – não só flexões, para além de códigos binários “erros x acertos”, “bem x mal”, “sucesso x fracasso”. Avançemos para o campo da pluralidade e da humanidade, transitando entre sonhos e realidades.

Lembremo-nos a cada dia “Das utopias” de Mário Quintana:

“Se as coisas são inatingíveis…ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos se não fora
A presença distante das estrelas!”

Em síntese: “dezembremo-nos”!

Publicado por okrost

Alguem em eterna busca.

3 comentários em “Dezembrar

  1. Antes demais meu nobre irmão do além mar, votos cordiais de boas festas para si, sua família e seus nobres seguidores, que te seguem pela missão nobre de aprender e partilhar lições da vida em jeito de ensinamentos sem julgamento.

    Vamos “Dzembrar” sim reflectindo neste vago pensamento de incertezas na lógica da velha máxima “o que vêm antes, a galinha ou o ovo” paradoxalmente “A arte imita a vida ou a vida imita a arte” para vai depender do contexto.

    Estando na Africa, hoje valorizo a vida porque faço a arte inconscientemente no meu dia a dia e quando tento interpretar os desafios da minha vida entendo que a minha vida é uma arte.

    Boas saídas e boas entradas, ansiosamente espero mais reflexões para o ano que vêm e que Deus nos abençoe abundantemente junto com as nossas famílias.

    Abraço RT

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  2. É o que mais nos falta. Viver essa humanidade e transitar livres entre as utopias e a realidade. Sem horizontes não creio que seja possível avançar. E os sonhos são o que nos impulsionam para sempre de novo ir adiante. A arte é a nossa salvação. Viver com arte é exercer a plenitude do que que somos. E que sejamos sempre: quem somos, com quem somos, de coração aberto… para a vida, para o viver…

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  3. Texto delicioso de ler! Perfeito para a polaridade para a qual nossa sociedade se direcionou. Muito Obrigada. Desejo um ano de reflexões e ações pra todos nós! Abraço, Bárbara.

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