SOBRE AMERICANISMOS E BRASILIDADES* **

Oscar Krost

Dia desses, li nas redes sociais uma severa crítica à proliferação de “sushi bares” na cidade em que resido, internacionalmente conhecida por sua colonização germânica e pelos esforços no cultivo das tradições ancestrais, arquitetônicas e culturais. A crítica, contudo, não se destinava à adulação da gastronomia oriental em si, mas ao fato destes mesmos cidadãos-consumidores não dirigirem mesma postura aos demais valores da filosofia que a originava, como o respeito ao outro, a preocupação com o equilíbrio das relações e a tentativa de manter a mente em um estado de paz.

Não pude deixar de achar graça nesta observação, pois além de pertinente, também se aplica a uma série de outras experiências que vivenciamos dia após dia neste Brasil com sobra e/ou falta de identidade.

“Americanismos” por aqui gracejam. Preferimos ler em vitrines de lojas o termo off ao invés de liquidação ou ir a shoppings centers no lugar de centro de compras sem qualquer pudor ou sinal de arrependimento.

Mas o que mais me traz inquietação é a crença quase cega de que em terras estadudinenses tudo prospera, por ser aquele um povo obstinado e detentor de todas as virtudes necessárias ao progresso e a felicidade, enquanto que por aqui, Pero Vaz de Caminha, desde 1500, afirma que tudo se plantando, dá, o mesmo não podendo se dizer de seus filhos, verdadeiro amontoado de gente aqui despejada por obra do acaso.

Mito, puro mito.

Não há diferenças significativas entre os habitantes do norte e do sul. O clima dos trópicos, aliás, facilita muito mais, pela média mais elevada de temperaturas ao longo do ano, a vida animal e vegetal.

Mas por que, então, por lá as coisas “fluem” e por aqui, aparentemente, “patinam”?

Teorias e lendas não faltam na tentativa de justificar o que existe e acontece, mas a maioria peca pela crendice em elementos transcendentais, místicos ou preconceituosos.

Tentarei ser breve, indicando uma leitura interessantíssima e que me serviu de inspiração para este articulado: “Armas, germes e aço” de Jared Diamond, no qual o autor, biólogo de formação, busca explicar a partir de acontecimentos geográficos, históricos e antropológicos o desenvolvimento não linear dos seres vivos em todos os continentes, tornando clara, ou melhor, menos obscura e ideológica, a causa da invasão da América Pré-colombiana pelos espanhóis, com êxito, e não o contrário.

Reverenciamos o modo norte-americano de vestir, comer, beber, enfim, de viver, mas não damos a mesma importância aos aspectos histórico-culturais que fizeram com que os irmãos anglo-saxões se arvorassem em se autoproclamar, sem qualquer consulta aos demais países do globo, diga-se de passagem, “bastiões da liberdade universal”, especialmente, dos indivíduos.

Embora também representem parte do Novo Mundo, seus colonizadores não tiveram o mesmo interesse extrativista que os nossos, por várias razões, com destaque ao fato do clima e do relevo das faixas litorâneas, primeiramente ocupadas, favorecerem a produção das mesmas culturas havidas na Europa, o que não ocorria no Brasil, onde o calor, a fartura de água e a multiplicidade de espécies animais e vegetais o tornavam um imenso mercado de artigos exóticos, de alto valor comercial a céu aberto.

Partindo de tais fatos, nota-se um direcionamento diverso de cada grupo de colonizadores: de um lado ingleses-mercadores pré-industriais, outros portugueses-extrativistas sem qualquer plano de desenvolvimento próprio.

Tal distinção, aliada à influência do protestantismo, às perseguições a determinados grupos étnicos, bem como da parcial homogeneidade cultural, política e ideológica dos emigrantes, para ficar apenas em alguns aspectos, torna fácil começar entender o porquê dos cidadãos da Federação dos Estados Unidos da América lutarem tanto para, desde o século XVIII, assegurar de forma expressa a autonomia de cada um de seus entes, tornando residuais os poderes do governo central, em verdadeira ação centrípeta (de fora para dentro, com força de atração). Há um desejo de serem estados unidos, aqui sem qualquer intenção de fazer trocadilho, porém dotados de autonomia. Em sentido oposto, em terra brasilis, os estados, capitanias ou províncias, independente do nome ou divisão territorial que se adote, sempre foram usurpados de suas liberdades políticas, servindo primeiro aos interesses da metrópole (Brasil colônia), depois à Corte portuguesa (Brasil império) e, finalmente, ao governo central (Brasil república), gerando um federalismo do tipo centrífugo (do centro para fora, com força de repelência), no qual não há maior identidade da periferia com o centro, tornando mais do que comuns aspirações separatistas e emancipatórias.

No EUA, cada estado possui liberdade para elaborar leis, inclusive penais, com tanta amplitude ou mais do que muitas nações do mundo, tendo por único limite uma Constituição Federal com mais de 200 anos, datada de 1787, e apenas 25 artigos, com um governo de perfil pouco intervencionista e particulares autônomos e responsáveis. Os cidadãos, ainda que em um modelo de democracia representativa indireta, por colegiados, em movimento ascendentes, estabelecem as pautas do Estado, principalmente em âmbito interno.

Já no Brasil o modelo de Estado é distinto, assim entendido o aparato burocrático, anterior aos próprios conceitos de povo ou de território, na medida em que no período colonial, antes mesmo da delimitação de terras, já se fazia presente uma estrutura político-organizacional encarregada de extrair riquezas e fixar marcos normativos, a fim de obter ganhos para a Corte Lusitana, embora o voto dos representantes do povo seja feito direta e nominalmente destinado por este.

Percebe-se uma grande diferença: o governo aqui se impõe aos cidadãos, os quais têm suas liberdades cerceadas, sendo o poder localizado na capital federal autorizada a definir quase tudo, delegando aos governos dos estados, onde, efetivamente, é produzida a riqueza, liberdades residuais e pontuais, o que acaba gerando reflexos sobre o agir dos cidadãos, não ouvidos e desemponderados, termo antítese do tão em voga utilizado na atualidade, em meros sujeitos passivos de tutela, em um movimento de sentido descendente.

Não estou, com isso, defendendo a liberalização da política e da economia, tampouco a instauração de um Estado mínimo ao feitio do preconizado pelo Consenso de Washington, no final da década de 1980, produtor de um verdadeiro Darwinismo Social, no qual as tônicas são a competição e o individualismo, e a sobrevivência, predicado dos mais aptos.

Ao contrário, gostaria apenas de suscitar o debate, a partir de opiniões, senão isentas, despidas de “pré-conceitos”, aproveitando o forte calor das manifestações populares iniciadas em junho de 2013, para deixar claras algumas premissas a nossas frequentes dúvidas sobre o verdadeiro valor do Brasil como país e de seu povo como verdadeira civilização, admirados e cantados em prosa e verso por todo o mundo, mas, na fala de Nelson Rodrigues, perseguido por uma verdadeira síndrome de “vira-latas” em seu íntimo.

Pensem. Reflitam. Discutam. E, se sobrar algum tempo, do que não tenho dúvida, antes das eleições de outubro, aproveitem e cantem “pra frente Brasil, salve a seleção!!!!”

* texto e imagem originalmente veiculados no jornal “Expressão Universitária”, publicação do Sindicato dos Servidores Públicos do Ensino Superior de Blumenau/SC (SINSEPES), ano 04, nº 44, julho/2014, p. 10, disponível em <https://bu.furb.br/CMU/jornais/ExpressaoUniversitaria/2014_07.pdf>. Acesso em: 19 abr. 2022.

** as reflexões aqui sintetizadas são fruto de provocações do Historiador Viegas Fernandes da Costa, colega no Mestrado em Desenvolvimento Regional (PPGDR/FURB), durante a realização dos créditos obrigatórios, ao longo de 2014, a quem dedico a republicação quase uma década depois.

Publicado por okrost

Alguem em eterna busca.

3 comentários em “SOBRE AMERICANISMOS E BRASILIDADES* **

  1. Grande mestre Oscar! Excelente artigo. Me lembrou do Jessé Souza, quando aponta que inclusive nossa produção acadêmica/científica é inferiorizada, pois nasce da epistemologia preconceituosa de Max Weber, que via nos cidadãos do sul global os mesmos preconceitos que os seus pares de tempo histórico viam.

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